A Sérvia e os de lá

Escrevo ainda no aeroporto de Belgrado, e não vou expor os nomes desta estadia intensa de quatro viajados dias. Sempre numa conversa tangencial, entre o inglês e o gestual, porque da lingua sérvia apenas uma ou outra palavra solta, captada nos diálogos entre si.
(Em uma noite bem regada em cerveja, disse-lhes a páginas tantas - You are talking about me! - Why did you said this? Do you understand us? - No, but I feel... - Gargalhada geral e nova roda de canecos - elas, as senhoras, também bebem - e outro tema de palração.)
E assim, vão dando asas à sua descontracção. Depois do jantar... Percorrer a Sérvia é muito ouvir o silêncio que apenas significa consternação.
É ainda recente o seu mundo, um retalho da finada Jugoslávia que ainda lhes está no coração. Falam de Tito com saudades de um tempo estável, com política só para alguns, mas com pão e trabalho para todos. Extraordinário! Porque, de seguida, vêm as recordações da Guerra Civil (tinha diante mim dois combatentes nela...), dos morticínios, da pequenez da Sérvia face ao gigantismo da vizinha Croácia...
Não manifestam um orgulho exacerbado pelas suas extensas culturas de milho e girassol, durante quilómetros e quilómetros marginando as estradas. Caladas estradas, aliás, onde afloram aqui e ali uns povoados desinteressantes e um casario não se sabe se semi-construído, se semi-destruído, em qualquer caso esquecido. A Sérvia vive muito a apatia do futuro. E sobrevive sempre, com um copo de rakia na mão, uma conversa resignada, um olhar eslavo, azul e loiro, posto no chão, embrenhado sabe-se lá em quê...
Por isso a mesa posta é o altar deles. Alheados da comodidade ou da estética das habitações, no verão vindo para o terraço, comendo e bebendo ao longo da tarde. E por isso também, o gozo em receber forasteiros e oferecer-lhes a sua hospitalidade, em troca de um nico de compreensão e novidade.
A estrada arrastou-se umas horas, sempre calada e tristonha. À chegada, os abraços efusivos aos amigos e uma garrafa de rakia a festejar o encontro. E a sua potente gastronomia que não parece moer-lhes a resiliência. Passei todos estes momentos com eles. Os do silêncio, os da galhofa, os da estrada e os de casa, mais alguns de confidências. São diferentes - muito - de nós, meridionais. Mas não há como não gostar deles, de os acompanhar numa vida sem placas indicadoras do destino.

 

Comentários

  1. Extraordinária crónica, João-Afonso. É preciso uma sensibilidade muito apurada para ouvir o silêncio de uma estrada e captar a história que vibra na resignação e na hospitalidade de um povo. Conseguiu fotografar com palavras essa linha ténue entre a ferida da memória e a generosidade da mesa posta. Um retrato eslavo belíssimo, íntimo e profundamente humano. Há viagens que se fazem pelo mapa e outras que se fazem na geografia interior das pessoas com quem nos cruzamos. Essa "vida sem placas indicadoras do destino", regada a rakia, silêncios e memórias da História recente, fica a ecoar durante muito tempo. Obrigado por esta partilha tão vívida e sem filtros a partir do aeroporto de Belgrado.

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    1. Muito obrigado caro Daniel. Os eslavos são realmente diferentes de nós e a vantagem maior de andarmos por aí é a preparação para empatizar com outras vivências.
      Abraço

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  2. Os olhos e a alma cheios!🥰
    Bela partilha!
    Beijinhos🌻

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  3. Good Avgust and vikend time...kiss Andreja!

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