Era eu um miúdo, do tempo dos westerns e da banda desenhada, e não desdenhava ouvir os programas televisivos do mestre Vitorino Nemésio. Não porque entendesse a sua conversa (ainda agora o Mau Tempo no Canal não é de leitura fácil...), mas porque o seu ritmo de voz, o à vontade com que se mexia na cadeira, os apartes e a noção precisa da divagação das suas ideias, o ar que oscilava entre a sonolência e a acutilância - tudo somado, pregavam-me ao ecrã donde vinham esses dizeres em (para mim) cantonês espontâneo e num tom o mais cativante.
Assim com gosto visitei a sua casa na Praia da Vitória...
E... se bem me lembro... o berço deste palavrório encontrei-o no resultado de hoje, no Mundial de Futebol, conseguido pela selecção de Portugal ante o Uzbequistão. Cinco golos sem resposta, depois de um desolador empate com o Congo. Na realidade, somos isto, um constante alto-e-baixo. É difícil confiarmos em nós mesmos, que nunca sabemos para que lado acordamos. Conforme os devaneios de Nemésio - indo para lá do futebol - quem (cada quem) poderá garantir se as horas do dia à sua frente serão de heroísmo ou de cataclismo?
Numa achega brejeira, diria que nem sabemos se serão de autoclismo... Certo é, assim conseguimos sobreviver. Com alguns picos de glória e - felizmente menos - instantes de fatal decepção.
E, em semelhante amplitude de vida, reside uma mediania pachorrenta, um segundo, terceiro ou quarto lugar, consoladora explicação moral seja lá para o que for.
É essa mediania o nosso mal maior. A tolher-nos a travessia dos canais todos logo que as ondas não estejam a jeito de segurança... Se bem me lembro... aquela segurança que os portugueses antigos mandaram às malvas...
Ah! - lembrei agora: eu ia no futebol e no próximo jogo com a Colômbia; ou, correndo este bem, no seguinte. Como sempre, seremos fantásticos ou, senão, juízes dos árbitros, do treinador, mesmo até dos jogadores. Porque (o programa está no seu final...) uma nossa especialidade, tradicionalmente mantida, é a de para tudo descobrirmos bodes expiatórios.

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