Perdeu-se a essência

 O discurso do novo ministro da administração interna, Dr Luis Neves, a seguir à Páscoa, foi duríssimo sobre o ambiente rodoviário nacional, diria mesmo que foi um autêntico murro no estômago de muita gente.

A sua frase, “perdeu-se a essência da fiscalização rodoviária contínua e especializada ” explica bem o estado de impunidade que grassa nas estradas nacionais, estejam elas em bom ou mau estado, bem ou mal sinalizadas.

Os condutores portugueses habituaram-se a falar de caça à multa, como desculpa para a péssima condução que praticam e, muito pior que isso, a forma despreocupa e negligente como encaram a sua própria segurança, quanto mais com a dos outros.

Uma notícia recente sobre as inspeções e sobre as regras que as regem, atesta bem a forma como encaramos a segurança automóvel, bem sei que estamos a falar de uma situação nova, o recall que as fábricas fazem aos seus veículos e que, curiosamente ou não, muitos condutores ignoram.

E ignoram também por outra razão, porque descuram as revisões, acham que basta mudar o óleo e o filtro de ar e assunto está arrumado e a maioria fazem-nas fora dos concessionários oficiais.

Também é verdade que concessionários “esfolam” quem lá vai, só para ter uma ideia do preço que custa, exemplifico com o custo de uma mudança de óleo. Um litro de óleo de determinada marca que se compra na loja a 19 euros, o concessionário cobra 40 euros pelo mesmo óleo, da mesma marca e com as mesmas especificações.

Mas voltando à questão dos recall, custa-me a entender porque tanta gente os falha. Afinal trata-se de situações graves, que implicam com a nossa segurança e a sua resolução, mesmo que implique a substituição de alguma peça é totalmente gratuita, inclusive a mão de obra.

O número de veículos que faltaram a esta chamada não é desprezível, razão pela qual, desde 1 de Março passado, altura em que entrou em vigor esta regra, estão a chumbar cerca de 80 veículos por dia nas inspeções.

Sendo o recall dirigido ao proprietário, nalgumas situações este já não está na posse do veículo e não tem forma de contactar o novo proprietário. Ora esta última situação deverá merecer também a atenção do legislador, obrigando a que a alteração da propriedade de um veículo seja comunicada também à marca para mitigar a falha a estes recall.

Deixo agora um exemplo pessoal sobre esta questão. Há uns bons anos troquei um carro num concessionário de Torres Vedras e entreguei o meu veículo antigo. Curiosamente o meu carro antigo foi vendido no mesmo dia em que o deixei no stand e poucas semanas depois encontrei-o muito próximo da minha residência, no parque de estacionamento da Casa das Queijadas do Preto.

Falei com a senhora, conversa de circunstância e garanti-lhe que o carro estava em bom estado e tinha sido bem tratado.

Encontrei-me  mais vezes com a senhora que residia nas proximidades da Praia das Maçãs, foi manifestando a sua satisfação com o carro.

Um dia recebi um recall para esse veículo ( na marca ainda se encontrava em meu nome). Tinha esperança em reencontrar a senhora e dar-lhe a carta, mas foi passando o tempo e não nos cruzámos. Fui à GNR de Colares, expliquei a situação, informei que não queria a morada da senhora, mas gostaria que a contactassem para que ficasse a saber do que se passava.

Foram relutantes, mas consegui persuadi-los a contactar a senhora (não sei se o fizeram) que nunca mais encontrei.

Comentários

  1. Troquei de carro no ínico deste ano porque o anterior tinha 11 anos e o vício do óleo. Mudei esste sempre no concessionário e uma vez houve em que, por 1 litro, me quiseram levar uma exorbitância. Protestei e baixaram «por gentileza» para mais de metade. Fora isso o carro estava execelente e na troca deram um valor justo por ele.

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    1. É pena que as marcas não se interessem pelos clientes ao praticar preços exorbitantes. Eu percebo muitas peças que dizem ser de origem são feitas pela mesma empresa que as comercializa sob outras marcas.

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  2. Não há dúvidas que muitas inspeções não o são, tudo passa desde que seja pago.

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  3. Esse problema aliado à péssima condução explica o resultado dos números da nossa sinistraliudade.

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