Perdi-me no tempo, durante o tempo em que ele tentou
encontrar-se comigo, saltei num espaço maior do que o espaço que ocupava,
ocupei-me a fazer qualquer coisa, depois de ser obrigado a não fazer nada,
naveguei no mar imaginário, tão diferente daquele mar que me acolhia na praia e
que se espraiava, fora os dias de tempestade, docemente aos meus pés.
Perdi-me de mim, depois de pensar ter-me encontrado, em lado
nenhum. Nenhum lado é bom se não soubermos de que lado se está. Longe talvez,
ou bem perto quiçá, aqui ao lado do meu lado, sem saber onde estava.
Escrevo estas linhas, penso eu, mas dizem-me elas é que se escrevem
sobre mim, mesmo que as palavras não me conheçam, de lado nenhum.
Procuro-me por todo o lado, inclusive em lado nenhum e nem aí
me encontro. Nem sei como me procurar, talvez porque não me queira encontrar.
Não sei se fujo ou se a fuga se iniciou sem mim.
Fugi assim, porque sim, sem mais, nem menos, sem justificação
ou autorização.
Tropeço numa nuvem que se encontrou comigo, pergunto-lhe onde
estou. Não me responde, rasteira-me, só para atrapalhar o meu caminho, passa
por mim em direção a lado nenhum.
Vai veloz, quase invisível, escondida na luz nascente que ainda
se envergonha de aparecer.
Confundo a luz nascente com outra qualquer, a nuvem também e todos
se confundem comigo, por não saberem quem sou e de que lado estou.
Não sei se sou eu através da minha inteligência racional ou
emocional ou quem sabe a outra que não conheço, mas que sabe quem eu sou, a
artificial que está aqui, a falar por mim, sem mim e eu já nem sei se ela, a
Inteligência Artificial sabe sequer que lugar é esse, em lado nenhum.
Vagueio-o por aí, mas não estou a andar por aí, as minhas
pernas ainda não sabem mas já não andam, só se sentam, sem se sentir e sem me
sentir.
E eu, que já não sei se sou eu, já nem tão pouco sei quem
fui, nem o que fiz, onde vivi, nem quem me conheceu, quem foi meu amigo e
trazia outro amigo também.
Sou gente que sem ventre de lado nenhum, me pôs no mundo,
onde não caibo, não existo a não ser aqui, neste espaço virtual e algures por
aí, em lado nenhum.

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