Lisboa!

 Lisboa! A sedutora

 

(1)

Na dura e incerta vida do campo, onde nunca se sabe com que contar, aquando das colheitas, mas tendo como certo o duro trabalho das sementeiras, os jovens sem perspetivas de uma vida diferente da dos seus pais e avós, à medida que foram tendo acesso à escola, à vida militar, procuraram, na sedutora Lisboa, uma vida melhor

Todos ambicionavam um emprego com um ordenado certo, sabendo com o que contar ao fim do mês

Foi o princípio do despovoamento do interior que, até hoje, ninguém conseguiu inverter

Quando, de férias, voltavam às suas terras, bem vestidos, contando só casos de sucesso, escondendo as duras vidas, que muitos passaram, antes de conseguirem um emprego, fazia com que os que continuavam nos duros trabalhos dos campos, de sol a sol a guardarem o gado, ao frio e à chuva, quisessem também ir para Lisboa

Rapazes e raparigas desdobravam-se em contatos com quem conheciam e sabiam que estava em Lisboa, na tentativa de conseguirem que lhes arranjassem um emprego, e os que não tinham a quem recorrer, apanhavam um comboio ou a camioneta da carreira para a capital

Chegados à grande cidade, começavam as dificuldades: onde comer, onde dormir ……..

Tinham de se desenrascar, entravam nos estabelecimentos, procuravam se precisavam de um empregado, fossem mercearias, talhos, alfaiatarias, restaurantes, tabernas, olarias ……….. 

Infelizmente, muitos passaram por grandes dificuldades, mas não desesperaram, houve quem conseguisse ganhar a vida, vendendo uma caixa de fruta, por dia, (bananas, laranjas, morangos ….) numa esquina com movimento, a um preço convidativo, de que todos gostamos, com a ajuda de uma balança mal aferida ou mal utilizada, muitas vezes só olhamos para o preço, e não para o peso, gostamos muito de pechinchas.

 

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(2)

Lisboa fervilhava de criados e criadas, enquanto as províncias iam ficando sem jovens, que já não se sujeitavam aos trabalhos do campo, onde labutavam os pais e os avós

Na grande cidade poucas mulheres trabalhavam, só as mais pobres, as outras, competia ao marido assegurar o rendimento, para o sustendo da casa, incluindo o contrato de criada ou criadas

Nos bairros chiques, as casas tinham porteira, e nas traseiras, as escadas em ferro (as escadas de serviço) por onde leiteiros, carvoeiros, padeiros, merceeiros ……….. transportavam, diariamente, os bens de primeira necessidade de que as  famílias precisavam

Às porteiras competia a limpeza da entrada e escada interior, algumas tinham as chaves de todos os condomínios para que, caso os condóminos se esquecessem das suas, elas lhe abrissem a porta da casa

Na rua da Imprensa Nacional, uma porteira tinha muito brio em que a escada estivesse, sempre, a brilhar: ela lavava-a e dava-lhe cera, o marido puxava o brilho, viviam felizes por único filho andar no sétimo ano do Liceu, prestes a entrar para a Universidade, o que não era habitual, os filhos dos pobres chegarem ao ensino superior

Como sempre, há bons e maus patrões: os que respeitavam os rapazes e as raparigas, tratados com dignidade, como dizia o contrato verbal, mesa, cama e roupa lavada

Mas também havia quem lhes batesse, quem abusasse das raparigas, comer e cama indignos

Criadas e criados estavam numa situação muito fragilizada, sem familiares por perto, entregues à sua sorte, na grande cidade, dependentes da mesa e da cama, quase impossibilitados de dizerem não, sem horário de trabalho, nem feriados, nem férias

Nos estabelecimentos estavam afixados os horários de trabalho, mas era só para inglês ver

De anos a anos apareciam os fiscais do trabalho, para verificarem o horário de trabalho, se os empregados estavam inscritos na Caixa de Previdência, e no caso dos que trabalhavam com produtos alimentares era obrigatório ter cartão de sanidade

Para além dos criados e criadas, existiam os vendedores ou compradores com os seus pregões

A mulher da fava-rica:“ fava-rica, dos figos: “quem quer figos, quem quer almoçar”, a varina: “sardinha vivinha, da costa”, o homem do ferro velho: “quem tem trapos, jornais ou garrafas para vender”, e sem pregões, as lavadeiras de Caneças, que todas as semanas entregavam a roupa lavada e levavam a suja, e os vendedores de água de Caneças, em bilhas de barro

Não faltavam os peditórios para os Bombeiros Voluntários, para os Invisuais e para os Inválidos do Comércio: colocavam um carro em cima de uma camioneta, sem tapais, e vários homens abordavam os transeuntes e os lojistas, para lhes venderem as rifas, para o sorteio do carro

Nos anos 60 ter um carro era o sonho de muita gente, que só o conseguiria num sorteio ou na participação de um concurso

Somos muito solidários, mas com engodo, ainda, muito mais!

 

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As cidades são como as pessoas, vão envelhecendo, mas ao contrário das cidades, que raramente perdem o brilho, as pessoas não o conseguem conservar

Lisboa está tão diferente do que era antigamente, há menos de um século, está irreconhecível!

Era uma cidade triste, sem cor, onde não havia liberdade, havia medo de falar, não podíamos a nossa opinião revelar, não se sabia quem nos estava a espiar, uma cidade só para nacionais, transformou-se numa cidade universal, vestiu-se de novas cores, desabrochou, tornou-se numa bonita flor

No final dos anos cinquenta ainda havia algumas carroças pela cidade que, a pouco-e-pouco, foram totalmente substituídas pelos carros: a praga que não para de crescer, sufocando as cidades e as estradas, tornado o ar irrespirável, como aconteceu na avenida da Liberdade, em Lisboa

Não podemos passar sem eles, transformaram-se numa ferramenta de trabalho, tal como o computador e o telemóvel

A esperança está na nossa capacidade de inovação, fazendo-nos acreditar que em breve acabaremos com os motores de combustão. Mas não tenhamos ilusão, os desafios continuarão

Em 1958, ainda, havia uma olaria ao cimo da rua da Imprensa Nacional, mas o plástico viria para ficar e tornar-se numa das maiores invenções, e a olaria foi substituída por uma loja de plásticos

Nesse ano, o General Humberto Delgado, sem saber proferiria a sua sentença de morte, ao responder à pergunta dos jornalistas, o que faria a Salazar, se ganhasse as eleições presidências, que se supõe ganhou, cuja resposta foi: “obviamente, demito-o”

Mais tarde, disse que o regime só cairia com um golpe militar, o que veio a acontecer em 25 de Abril de 1974

Daí em diante tudo se precipitou, graves acontecimentos marcaram o País: a 25/01/1961 foi assaltado o paquete Santa Maria, a 4/02/1961, teve início a guerra em Angola, em dezembro do mesmo ano a União Indiana anexou o Estado Português da Índia: Goa, Damão e Diu, a 28/05/1963, no trigésimo sétimo aniversário da revolução de 1926, que deu origem ao Estado Novo, coincidência ou sabotagem, a cobertura das plataformas da estação ferroviária do Cais do Sodré, em Lisboa, abateu, causando 49 mortos e 69 feridos, a 13/02/1963 foi assassinado, pela PIDE, em Badajoz, o General Humberto Delgado, a 17/05/1967 foi assaltado o Banco de Portugal, na Figueira da Foz

Lisboa, também, atraiu alguns Galegos, que procuraram, na nossa capital, uma vida melhor Eram donos de restaurantes, num deles tive oportunidade de ver que tinha um osso de vaca, preso ao teto, que descia para a panela da sopa, quando ela estava a ferver, para dar gosto, depois voltava a subir para perto do teto, não sei quantas vezes deu gosto à sopa

Também se destacaram como moços de fretes. Havia muitas mudanças, principalmente, as mulheres gostavam muito de mudar de casa, para transportar as mobílias, que eram muito pesadas, e os pianos, recorriam aos moços de fretes, em grande parte, Galegos

O que deu origem a que, quando alguém pedia a outro para carregar um peso considerado demasiado, o outro perguntasse: “sou algum Galego?”

 Um serviço leve e muito bem pago, para o qual, também, eram muito solicitados, era a entrega de cartas em mão, com a recomendação de que só as entregassem aos destinatários. (“cartas de amor, quem as não tem?”)    

 

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Lisboa tinha dificuldade em acolher tanta gente, o que fazia com que a habitação fosse um dos maiores problemas dos pobres, tal como hoje

Nas casas grandes, com vários quartos, chegavam a viver três casais, os donos da casa e mais dois casais e filhos, caso já fossem pais, só com uma casa de banho

Outra situação era viver em parte de casa, em que dois casais alugavam uma casa, pareceu-me uma solução de mais difícil convivência

As águas furtadas também eram utilizadas, para dormir, porque só se conseguia estar de pé junto da janela

Como as rendas estavam congeladas, alguns senhorios recusavam-se a receber as rendas, nesses casos os inquilinos podiam abrir uma conta na Caixa Geral de Depósitos, em nome do senhorio, e depositar todos os meses o valor da renda, até ao dia 8, o que fazia com que o senhorio não pudesse pôr fora o inquilino

O dia 8 era sagrado, quem não quisesse ficar sem casa tinha de arranjar o dinheiro, nem que tivesse de recorrer (ao prego) à casa de penhores, onde o objeto penhorado, normalmente, ficava no prego, à espera que a dono ou dona o resgatasse, dentro do prazo, caso contrário o artigo ficava para a casa de penhores

Aquando da anexação, pela União Indina, do Estado Português da Índia, foram organizadas procissões, em Lisboa, para pedirem a intervenção do grande almirante Afonso de Albuquerque

Uma das procissões teve início junto à Igreja de São Mamede, em direção ao Convento do Carmo, escoltada pelas viaturas da Legião Portuguesa, chegada ao destino, a multidão gritou: “ levanta-te grande Almirante, porque a Nação está em perigo”

No comércio era tudo vendido avulso, ainda não se tinha generalizado a utilização do plástico

O leiteiro, que andava de porta em porta, numa das mãos trazia a bilha do leite, na outra as medidas

Nas mercearias, os clientes raramente compravam quilos e litros de feijão, arroz, farinha, azeite

Pediam cem gramas, duzentos gramas, quinhentos gramas,1 decilitro, 3 decilitros, meio litro

Os produtos, exceto o azeite, estavam armazenados em sacos, onde, por vezes, os ratos se passeavam.

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As grandes novidades tecnológicas dos anos 50 e 60 e a guerra fizeram com que o país fosse mudando

Em 1957, com o aparecimento da televisão e o início das transmissões regulares da RTP, tudo mudou, a caixa mágica, que até hoje, nunca mais nos abandonou

Mas poucos tinham dinheiro para terem uma televisão, para além do preço do aparelho, havia que contar com um escudo, por dia, para pagar a taxa da televisão

Só as famílias abastadas tiveram acesso às primeiras transmissões regulares de televisão

Alguns estabelecimentos viram nessa novidade uma oportunidade para angariarem mais clientela, principalmente os cafés e os restaurantes

Vi a apresentação das apostas mútuas desportivas totobola, explicadas pelo saudoso Artur Agostinho, pela televisão, num café, na rua de São Marçal, em Lisboa, onde ia, de quando-em-vez, com o meu patrão, nunca ficávamos até ao fim da emissão, porque no outro dia tínhamos de nos levantar muito cedo, pelas 5 ou 6 horas

Enquanto nós íamos para o café, a patroa ia deitar o filho e a filha, como habitualmente, as mulheres com menos oportunidades de lazer, devido à maternidade

O primeiro concurso do totobola teve lugar a 24 de setembro de 1961

Outro objeto que fez muito sucesso foi a esferográfica, que até hoje continua nossa companheira

Quando foi publicado, no Diário do Governo, que se podiam assinar cheques e escrituras com uma esferográfica, um advogado entrou no estabelecimento, com o Diário do Governo debaixo do braço e uma esferográfica na mão, eufórico, perguntou: “sabem que já se podem assinar cheques e escrituras com uma esferográfica?”

A caneta de tinta permanente acabava de perder o seu reinado, a esferográfica iria tirar-lhe o protagonismo, fazendo com que fosse votada ao esquecimento

Uma revolução comparável à que estamos a viver, uma vez que já podemos assinar escrituras e o divórcio, no aconchego das nossas casas.

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A guerra, primeiro em Angola, depois na Guiné e em Moçambique, veio ajudar a transformar o País

Com, cada vez, mais homens mobilizados para as frentes de combate, as mulheres tiveram de ocupar os postos de trabalho, que os homens já não podiam assegurar

Foram mobilizados homens, que já tinha cumprido a vida militar há 10 anos ou mais, como oficiais milicianos, que tinham as suas vidas organizadas, obrigaram-nos a deixar o emprego, as mulheres e os filhos, graduaram-nos em capitães, comandavam uma companhia, e eram eles que com sargentos e praças iam para o mato

As Escolas Práticas e outros centros de formação de oficiais milicianos não conseguiam mobilizar os jovens suficientes para oficiais, porque eram poucos os que tinham, pelo menos o sétimo ano do liceu, para poderem ir para o curso de oficias milicianos

Em 1968, nas Caldas da Rainha, nos cursos de instruendos para sargentos, finda a recruta, os oficiais pediam para os elementos de cada pelotão, por voto secreto, escolhessem três camaradas para irem para o curso de oficiais milicianos, a escassez obrigou à criação da exceção

Não eram só os militares que tinham dificuldades em recrutar homens com estudos.

Também as empresas não conseguiam encontrar trabalhadores qualificados, para os seus quadros, algumas davam formação, pós laboral aos seus trabalhadores e pagavam-lhes aulas em institutos e escolas de línguas, para aperfeiçoarem, principalmente, o inglês

Algumas empresas, de representações de produtos estrangeiros, tinham dificuldade em satisfazer os pedidos dos seus representados, para que se deslocassem às suas fábricas, técnicos para formação, no sentido de prestarem melhor assistência, pós venda, por não saberem inglês  

A forte emigração, nos anos 60 e 70, também contribuiu para um grande desenvolvimento com o envio das suas poupanças para o nosso País. Todos tinham a ambição de mandarem construir vivendas, nas suas terras natal

A construção civil teve um grande incremento, bem como os Bancos, que com as remessas

dos emigrantes, tiveram de admitir muitos trabalhadores, quase só homens, mas a pouco-e-pouco as mulheres foram chamadas para mais setores de atividade

A nacionalização dos Bancos, devido ao golpe militar do 11 de Março de 1975, contribuiu para que as bancárias e bancários, que vieram das antigas colónias, tenham sido integrados nos bancos nacionais

A descolonização não foi perfeita, mas foi a possível, poderia ter sido diferente, se tivesse acontecido antes dos movimentos de libertação terem iniciado a guerra

Todos os que abandonaram as antigas colónias e vieram para Portugal, apesar de terem passado por muitas dificuldades, foram integrados e contribuíram para a dinamização do País

Somos um País pequeno e pobre, mas um povo grande e acolhedor.

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No ano de 1959, pelo menos, duas grandes inaugurações: a 17/5/1959 foi inaugurado o Santuário Nacional de Cristo Rei

Um mar de gente invadiu as ruas da baixa de Lisboa em direção aos cacilheiros, os barcos que fazem a travessia do Tejo entre Lisboa e Cacilhas, 300 mil pessoas assistiram à inauguração

Quase no fim do ano, em 29/12/1959 foi inaugurado o Metropolitano de Lisboa. Alguns dos passageiros, quando voltaram à superfície, disseram que tiveram dificuldades em respirar

Tudo o que é novidade pode causar alguma ansiedade. Todos sabemos o que aconteceu com alguns produtos alimentares, em que o Rei teve de os comer em público, para que o povo acreditasse que não fazia mal à saúde, o que aconteceu com as batatas

As mudanças e as novidades eram constantes, do estrangeiro copiámos o snack-bar e o self-service. O primeiro self-service, em Lisboa, se não estou em erro, funcionou na Avenida Liberdade

Havia uma fila enorme, todos queriam saber como funcionava a novidade, pegar num tabuleiro, recheá-lo e colocá-lo num apoio alto, comer de pé, para ser mais rápido

Muitos olhos a vararem-nos como se nos quisessem fuzilar, parecendo dizer para nos despacharmos, porque também queriam petiscar

Para quem tinha duas horas para o almoço, aquilo era inconcebível, o melhor era continuar a ir ao tradicional restaurante, comer e beber, ficar ali no ripanço, a falar de futebol, a concordar ou discordar do trabalho do árbitro

As tabernas, só frequentadas por homens, trabalhadores braçais, onde bebiam vinho ao copo, tirado dos barris, de fraca qualidade, muito feito a martelo, acabaram por desaparecer, também vendiam carvão e petróleo

Os cafés, no início eram mais para as elites, onde discutiam política e forjavam revoluções

Nos anos sessenta não se viam mulheres nos cafés, onde se podia passar o dia a estudar ou dar explicações

Muitos eram espaços enormes, com muitos lugares, em quanto que o snack-bar, normalmente era um pequeno espaço, com refeições leves e rápidas

Vieram fazer concorrência aos restaurantes, onde se passavam duas horas ou mais a almoçar

Quando os snack-bares apareceram, os alfacinhas sentiam-se importantes, quando diziam: “ vou ao snack-bar”, era como se aquela palavra lhes desse outro valor: os tornasse importantes, diferentes dos que não frequentavam aquele espaço, para eles, snobe 

Durante muitos anos, preferimos produtos estrangeiros, tínhamos uma grande admiração por tudo o que vinha de fora. Poderá estar relacionado com a fraca qualidade dos nossos produtos, por não haver concorrência, e tudo o que produzíamos ter escoamento nas colónias.

 

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Com a Revolução de 25 de Abril de 1974, o País abriu as fronteiras e teve de se adaptar à concorrência

Hoje, a etiqueta “ fabricado em Portugal” é reconhecida e apreciada por nacionais e estrangeiros

A Educação é o motor para o desenvolvimento da Nação. Mas, infelizmente, nem todos os Governantes têm sensibilidade e sabedoria para investirem e escolherem Ministros capazes de fazerem avançar o País, para não falar da escolha dos amigos, incompetentes

O Professor Veiga Simão, em 1970, foi nomeado Ministro da Educação Nacional, pelo Professor Marcelo Caetano

Defensor da democratização do Ensino, fez uma das mais importantes reformas, que ainda hoje dá frutos

Foi responsável pela criação das Universidades Nova de Lisboa, do Minho e de Aveiro, e do  Instituto Universitário de Évora

Uma das medidas que mais beneficiou os mais desfavorecidos, estudantes trabalhadores, foi a possibilidade de se fazer o segundo ciclo liceal, por disciplina, em vez da obrigação de o fazer por secção (secção de letras ou de ciências) a partir dos dezoito anos, candidatando-se a exame, como alunos externos

O Ensino Liceal constava de três ciclos. Para o primeiro ciclo liceal, o primeiro e segundo anos, terceiro, quarto e quinto, anos para o segundo ciclo, sexto e sétimo, anos para o terceiro ciclo

Fazer os três anos por disciplinas, em vez de ter de fazer todas as disciplinas em simultâneo, fez com que muitos rapazes conseguissem completar o Ensino Liceal, dando-lhes acessos à classe de Oficiais, ingressando no curso de Oficiais Milicianos, para cumprirem o serviço militar obrigatório

Diz-se que esta alteração, no ensino secundário, fez com que os filhos dos pobres, também, tenham contribuído para o Movimento das Forças Armadas, que derrubou a ditadura, na madrugada do 25 de abril de 1974

Por volta dos meados da década de sessenta, o Exército passou a exigir o segundo ciclo liceal, para a frequência do curso de Sargentos Milicianos, porque já tinham candidatos suficientes com o segundo ciclo liceal

Por toda a Lisboa havia Colégios e Centros de Ensino de Línguas, e os alunos das Universidades davam explicações aos do Ensino Liceal

Fosse porque a guerra despertou, nos rapazes, a vontade de cumprirem o serviço militar como oficiais ou sargentos, em vez de praças, fosse porque a vida de caixeiro era muito dura, todo o dia de pé, com horários de trabalho de oito horas, só para inglês ver, porque esses horários não eram cumpridos

Na década de sessenta, os Colégios, os Centros de Línguas e as explicadoras e explicadores tiveram uma grande procura

A ambição era saltar do balcão para o escritório. Mas, para isso, era preciso ter o segundo ciclo liceal.

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Um bonito horário, bem emoldurado, na parede estava pendurado, onde se podia ler: horário de trabalho, entra às 9 horas, sai às 13, entra às 15 e sai às 19

Na realidade entrava às 5 horas, 5,30 ou 6, dependia da hora a que o patrão acordava e da quantidade de produtos que precisava de comprar na Praça da Ribeira e no mercado da fruta

Dormia na parte de trás do estabelecimento, num divã, num espaço, onde também funcionava a cozinha, tinha entrada pelo estabelecimento e pela serventia do prédio

Na adormecida madrugada, o patrão dava duas pancadas na porta, interrompia os sonhos, levantava-se ainda a dormir, vestia-se, lavava a cara e estava pronto para ir para a Ribeira

Às 7,30 apanhava o elétrico para ir abrir o estabelecimento às oito horas

A porta ondulada, de ferro, da largura do estabelecimento, era muito pesada para a sua pouca força, para que a conseguisse descolar do chão, tinha de agarrar nas duas pegas e inventar forças para a conseguir elevar à sua altura, depois era mais fácil empurrá-la até se enrolar toda

Pelas 9 horas, a patroa trazia-lhe o pequeno-almoço, tomava-o atrás do balcão, de pé, se entrasse algum cliente, atendia-o, depois continuava a saborear a sua primeira refeição do dia

O almoço também era servido no mesmo local, umas vezes de pé outras sentado nos cabazes vazios da fruta

Fechavam o estabelecimento às 21 horas, arrumava-o e lavava o chão, não havia esfregonas

Uma rotina de 365 dias por ano

Numa manhã, pelas 8,3horas entrou, no estabelecimento, um cliente diferente, perguntou pelo patrão, como ele não estava, disse que era fiscal do trabalho, passou uma multa de 200 escudos, e acrescentou que inscrevesse o empegado na Caixa de Previdência e tratasse do cartão de sanidade

O patrão não gostou nada da visita inesperada, disse que a multa era uma fortuna, mas cumpriu com tudo o que o fiscal determinou

O empregado é que não conseguiu atingir o ordenado de 200 escudos, entrou a ganhar 70 escudos, aumentou-o quando quis, nunca lhe pediu aumento, sempre 20 de cada vez, quando se despediu ganhava 190 escudos.

O patrão tinha-lhe prometido, várias vezes, que iria abrir um estabelecimento, para ele tomar conta

Não foi fácil dizer-lhe que se ia embora, que tinha arranjado um emprego de 8 horas de trabalho, que poderia, finalmente, estudar e fazer a vontade ao pai, que em todas as cartas lhe pedia que estudasse.

 

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Tinha passado quatro anos com aquela família, que sempre o tratara bem, que tinha um filho da sua idade. Mas que, infelizmente, a poliomielite incapacitara para o resto da vida, a irmã tinha menos dez anos

Brincaram muito, os três, no Jardim Botânico, nas tardes em que não havia movimento no estabelecimento

Uma família de Vide-Entre-Vinhas, Concelho de Celorico da Beira, Distrito da Guarda, muito crente

Nos primeiros dias a comunicação não foi fácil, um país tão pequeno, mas com muita diversidade

A pouco e pouca foram-no integrando nos seus rituais, começou por ir todos os domingos à missa, se não pudesse ir de manhã, à Igreja de São Mamede, ia à tarde à Igreja dos Mártires, ao Chiado, no mês de Maio, mês de Maria, iam todas as noite à Igreja, frequentaram a catequese juntos: ele e o filho dos patrões, e fizeram a primeira comunhão no mesmo dia, todas as noites rezavam o terço, por isto, por aquilo e, também, pela conversão da Rússia

Os carros e os eletrodomésticos trouxeram as vendas a prestações, uma novidade que não foi pacífica, uns continuavam avessos à nova modalidade de pagamento, defendendo que continuariam a pagar a pronto, outros dizendo que era uma boa oportunidade para beneficiar da utilização dos utensílios e ir pagando

O tempo encarregou-se de dizer o que viríamos a fazer. Infelizmente, são poucos os que conseguem dar-se ao luxo de comprar a pronto de pagamento

Hoje, compra-se tudo a prestações e a crédito, paga-se com cartões, e se não tivermos saldo, para pagar a totalidade dos cartões, o Banco agradece, ficamos a pagar juros, pelo saldo em dívida. Mas, como não querem que nos falte nada, criaram a conta ordenado, para comprarmos tudo o que quisermos, quando quisemos, sem termos de esperar pelo dia em que recebemos o ordenado

Temos é de ter cuidado, não podemos é ir além do orçamento, senão temos de recorrer à Deco para nos ajudar a fazer um plano de pagamento, para não termos de pedir a falência

O ideal seria nem tudo gastar e algum poupar, felizes dos que o conseguem fazer, ao fim do mês, chegar.

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A despedida foi muito triste, todas as separações são muito emotivas

Já uns dias antes, um Senhor, que passava muitas tardes no estabelecimento, a quem alcunharam de brasileiro, por ter estado muito tempo emigrado no Brasil, se indignou quando o informou de que se ia embora, para outro trabalho

“ É por isso que este país nunca progredirá, estará, sempre, na cauda da Europa, agora que estavas preparado para tomar conta de um estabelecimento, vais aprender outra coisa, foram quatro anos perdidos”

Um trabalho diferente: fazer tapetes para automóveis, o automóvel era um investimento muito caro, por isso era preciso protege-lo para que durasse o mais possível

Subiu um andar, passou dos rés-do-chão para um primeiro andar, na rua da Paz, com vista para a rua dos Poiais de São Bento, onde passa o famoso elétrico nº28, da Carris

Um conterrâneo, que trabalhou numa fábrica de tapetes para automóveis, decidiu arriscar e começou a trabalhar por conta própria

Alugou umas águas furtadas, de dia visitava os standes de automóveis à procura de encomendas, de noite executava-as, no dia seguinte ia entrega-las e angariar mais encomendas

Começou com duas peças de tapetes de cairo, uma para fazer os tapetes da frente e outra para os detrás, cuja fábrica era em Cortegaça

Para concorrer com o antigo patrão, encomendou peças com menos cinco centímetros de largura

Como o negócio começou por correr bem, alugou um primeiro andar, na Rua da Paz, contratou o irmão mais velho, que cumpriu o serviço militar como maqueiro, tendo-se voluntariado para ir para Macau, com a intenção de, quando passasse à disponibilidade, ficar lá a viver

Mas chegou à conclusão de que não podia concorrer com os chineses, que se alimentavam com um punhado de arroz, por dia

Passou à disponibilidade em Lisboa, onde ficou a trabalhar nas obras

O irmão não só o contratou, como lhe pediu, emprestadas, as poupanças

Não é nada fácil passar de operário para patrão, quando não se tem capital para comprar o essencial, mas há quem arrisque e com a ajuda de um e outro consiga criar bons negócios

Deixou o bairro chique de São Mamede e foi para a freguesia das Mercês, casas pequenas, muito antigas, com escadas estreitas, com a Assembleia Nacional a olhar para elas, cheia de deputados engravatados, como que nomeados para oprimir o povo

Calçada do Combro, Rua do Poço dos Negros, Rua dos Mastros, Largo Conde de Barão, como que a fechar a Rua de São Bento.

Continua

 


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