Experiência

Nos tempos que correm entrar numa pastelaria e pedir simplesmente um café parece um sacrilégio, ficamos até com ar assim um pouco para o estúpido. Ao meu lado, quase sempre o pedido do café vem com o acréscimo, pingado, expresso, descafeinado, bem cheio, curto, abatanado, sem principio, chávena escaldada etc.

Para acrescentar um pouco mais de confusão à simples e deliciosa bica ou cimbalino que também se usa, há pouco dias, três bem dispostos entram no café onde estava e um deles pede três cafés mas acrescentou, por favor com cheirinho e em chávenas separadas se faz favor.

Nos últimos tempos as coisas começaram a evoluir para o gourmet pelo que hoje ir tomar um café deixou de ser um vício ou um acto rotineiro, para passar a ser classificado como uma experiência.

Confesso que tenho prazer em tomar o meu café fora de casa logo pela manhã, mas gosto de o fazer de pé ao balcão, nada de mesas, descontrai-me ficar de pé, mesmo sem pressa, a saborear o meu café e a sandes de queijo.

Uma das grandes contribuições para a gestão de filas no atendimento, por causa dos chicos espertos foi o sistema de senhas, que trouxe justiça e disciplina aos locais mais movimentados.

Feito o introito declaro: O que escrevo abaixo não é uma crítica é uma experiência.

Então a experiência (foi a primeira vez que entrei neste estabelecimento) consistiu no seguinte:

Hoje tive que ir para Lisboa logo cedo e no local para onde me dirigi a única pastelaria que vi foi a Padaria Portuguesa que usa, para gerir a ordem chegada dos clientes, as senhas de atendimento. Entrei às 7:23:08, tudo parecia calmo, tinha 6 pessoas à frente. Fui atendido às 7:32:23 e minuto e meio depois estava aviado.

Percebi que não podia ficar ali no balcão para tomar o pequeno-almoço no balcão como gosto e lá fui de tabuleiro na mão até à mesa mais próxima. Na mesma estava um caixa de guardanapos com os dizeres por favor levante o tabuleiro, não percebi a alusão de imediato.

Contudo, ao sentar-me vi que a mesa estava cheia de migalhas e lá levantei o tabuleiro para limpar a limpar com um guardanapo (pensei que serviam para limpar a boca e não a mesa).

Percebi então que levantar do tabuleiro, tem como consequência a mesa poder ficar suja e ninguém a vai limpar. Eventualmente, acredito que o sistema de gestão de clientes ao fim de umas quantas senhas, sugira que se entregue um pano ao cliente para limpar a mesa que deve ser posteriormente acondicionado no tabuleiro que se levanta e se deposita num carrinho estrategicamente estacionado.

Não existir espaço para se tomar o pequeno-almoço ao balcão, não gostei.

A espera para ser atendido (9m) pareceu-me exagerada para o tipo de organização – Que saudades tenho daqueles cafés onde reina a confusão organizada, em que um só empregado faz tudo, recebe pagamentos em dinheiro e multibanco, faz trocos, tira os cafés, limpa o balcão com o pano que sacode de seguida e grita lá para dentro (cozinha) “há uma sandes de queijo ao balcão”.

Estranhei tanta gente à espera e cheia de calma, mais calma até que os empregados que pareciam não ter energia (talvez ainda não tivessem tomado o pequeno-almoço) o que contrasta com as filas de qualquer serviço público (mesmo que a gestão da fila seja feita com senhas de atendimento) onde o maralhal começa logo aos gritos, não há mais ninguém para atender, não querem é fazer nada.

Por fim, gostei da comida e do café embora a única fatia de queijo que se encontrava dentro do pão, fosse tão fininha que ao trinca-la ainda pensei que se tinham enganado e em vez da sandes de queijo me tinham servindo uma com pouca manteiga.


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