Lisboa! A Sedutora
Continuação
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Três homens, solteiros, num primeiro andar: o patrão, o
irmão e o empregado
Uma casa forrada com peças de cairo, só a casa de banho não
tinha matéria-prima para fazer os tapetes
Era uma casa pequena: um quarto, cozinha, casa de banho,
sala e uma salinha muito pequena Os empregados dormiam na sala, no local onde
trabalhavam de dia
À noite, no cetro da sala, único espaço disponível, cada um
fazia a sua cama, o soalho e uma peça de cairo faziam de colchão
Com o novo contrato, verbal, ganhava mais dez escudos: 200
escudos, por mês, oito horas de trabalho, descansava ao domingo, com a
possibilidade de fazer horas extraordinárias, pagas à peça
Com moldes em papel, dois para cada modelo, um para a frente
outro para trás, marcavam os cortes a fazer, para que assentassem bem e os
pedais ficassem livres
Todos os cortes tinham de ser costurados com uma agulha, um pouco maior que uma sovela de sapateiro, com um buraco na ponta, para que o tecido não se desfiasse
Para além de fazer os tapetes, ia aos Bancos, entregava tapetes nos standes, de transportes públicos ou de táxi, dependendo da urgência
ou da quantidade, e ainda despachava encomendas, para todo o país, por
caminho-de-ferro, em alta ou pequena velocidade
As estações de caminho-de-ferro tinham um armazém onde
guardavam as mercadorias recebidas ou para expedição, ainda era rara a entrega
de porta a porta
Também chegou a ser incumbido de ir tirar moldes de modelos
que não tinham, um trabalho delicado, porque o papel assentava melhor que o
tapete, por isso era preciso saber compensar as diferenças, para que o fato
assentasse bem
O patrão passava muitos dias, percorrendo o país, de
comboio, visitando standes de automóveis, para angariar novos clientes
Em Tondela, travou conhecimento com uma rapariga que, como
muitas outras, por este país fora, sem trabalho nem expectativas de vida,
aguardavam, na casa dos pais, por um príncipe, que um dia as desencantasse
Como bom vendedor, disse à rapariga que tinha mundos e
fundos, e ela acreditou, namoraram uns meses e casaram
Depois de casados e da lua-de-mel, quando a trouxe para
Lisboa, e lhe apresentou o palacete para onde ia viver, a rapariga ia
desmaiando
Triste, mas sem
queixumes enfrentou a realidade, arregaçou as mangas e lutou ao lado dele
Tiveram duas meninas
Passados alguns anos, quando os tapetes de cairo, para
automóveis, caíram em desuso, e apareceram outros materiais, era ela, com uma
máquina de costura industrial, que fazia os tapetes
No primeiro carnaval, que ela passou em Lisboa, mascaram-se:
ela e o empregado trocaram as roupas, fizeram uma cegada, fazendo com que as
tristezas fossem esquecidas, mesmo que por pouco tempo.
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Em pouco tempo, aprendeu a fazer os tapetes, a bancada onde
os costurava estava encostada à porta que dava para a sacada, com vista para a rua
dos Poiais de São Bento, tinha um vista privilegiada
De fronte, na rua dos Poiais de São Bento, noutro primeiro andar,
viviam um casal e a sua bonita filha, namorou com ela o tempo inteiro, não soube
se ela chegou a saber
Andava a estudar, mas sempre que estava em casa, ia à
varanda, abria a porta e olhava para ele, os seus olhares cruzavam-se
constantemente, ia para dentro, pouco depois voltava novamente, e assim
passaram anos
Com a chegada da nova inclina, a esposa do patrão, perdeu o
direito de dormir na sala e o seu maravilhoso colchão
Valeram-lhe as águas furtadas existentes por cima do quarto
andar, habitado pela prima, que lhe arranjara o primeiro emprego, em Lisboa
Nelas já dormia o cunhado dela, que trabalhava numa oficina
de automóveis, para aprender o ofício de mecânico de automóveis
Tinham entrada por uma escada de madeira, feita pelo marido
dela, colocada á direita da entrada da casa deles
Era um pequeno espaço esconso, com um pé direito muito
baixo, com uma pequena janela para as traseiras, com um vão que permitia que se
pusessem de pé
Era um local muito quente no verão e muito frio de inverno,
sem qualquer isolamento, com as telhas em cima das ripas de madeira, que as
suportavam
Num Inverno, muito frio, tiveram a infeliz ideia de forrarem
o seu acolhedor quarto, com as caixas de cartão, onde vinham as caixas de vinho
do Porto, que o patrão oferecia aos clientes, pelo Natal
Ficou mais quentinho, mas passado algum tempo, sofreram um
ataque de percevejos, que tiveram de arrancar as caixas de cartão e proceder a
uma desinfestação
Por aquelas águas furtadas, enquanto a prima foi dona da
casa, passaram mais de meia dúzia de rapazes, que lutavam por melhores
condições de vida
Sentia-se muito feliz por poder ajudar os outros. Aos vinte
anos foi, para Faro, servir, depois foi para Lisboa, mais tarde casou e tiveram
uma filha, que se licenciou em biologia, e é uma excelente professora
Está credenciada, pelo Ministério da Educação, para ir a
tribunal, explicar a razão pela qual foi dada aquela nota e não outra, caso a
escola e os pais não cheguem a um acordo sobre a nota atribuída, e estes sigam
para tribunal.
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O irmão da patroa, com saudades da irmã, também foi seduzido
pela bonita Lisboa
Trabalhava nas Finanças de Tondela, concorreu para o
Ministério das Finanças, em Lisboa, onde foi colocado
Os ordenados eram muito baixos, uns escudos extras davam
muito jeito, o facto de haver muito trabalho fez com que o irmão da patroa,
depois cumprir o horário de trabalho, no Ministério das Finanças, fosse fazer
tapetes, quem também já fazia tapetes era a esposa do caixeiro-viajante, que
vendia as peças para os tapetes, mas em casa dela
Deixou o lugar de frutas e hortaliças para poder estudar,
mas não se decidia procurar uma escola para saber se ainda se lembrava do que
tinha aprendido nos quatro anos da escola primária
Estava como que a saborear o novo horário, o novo trabalho,
a oportunidade de fazer horas extraordinárias e ganhar mais uns escudos, quase
que se tinha esquecido dos estudos
“ Naquele ingano d`
alma ledo e cego/ Que a fortuna não deixa durar muito”
(Lusíadas, canto III, est. 120)
Mas, a prova de que o assunto o atormentava, foi o cunhado
do patrão, numa tarde, mal entrou, dirigiu-se a ele, e como quem dispara uma
arma, disse-lhe: “andas a dizer que
queres estudar. Já sabes que vais para a tropa e para o Ultramar. Queres ir
como soldado ou como sargento? Basta fazeres o primeiro Ciclo Liceal, para ires
como sargento.”
Aquelas palavras tiveram o efeito pretendido, foram as
palavras certas no momento certo
Pegou na lista telefónica das páginas amarelas, ( o Google
da altura) procurou uma escola, havia uma perto da Praça da Figueira, que
preparava adultos, para fazerem o exame da quarta classe
Assim que terminou o dia de trabalho, foi ver como
funcionava a escola e inscreveu-se, não para fazer a quarta classe, que já
tinha, mas rever a matéria
Faltavam dois meses para terminar o ano letivo, pouco mais
poderia fazer
Antes do novo ano letivo começar inscreveu-se na Escola
Académica, que funcionava no Largo Conde de Barão, perto de onde trabalhava e
vivia.
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A mensalidade para pagar os estudos era pouco menos do que o
que ganhava valeram-lhe as horas extraordinárias, para comprar os livros e
restantes despesas
Voltava a ter de fazer muitos sacrifícios para continuar os
estudos: oito horas de trabalho por dia, seis dias por semana, mais quatro
horas por dia de estudos, só ficou com o domingo para fazer as horas
extraordinárias
Num domingo de agosto, enquanto todos foram para a praia,
ficou sozinho, naquele primeiro andar, fez quatro tapetes, ganhou 60 escudos,
ficou muito contente
Nem todos os tapetes eram iguais, havia uns que tinham menos
trabalho que outros, eram todos pagos a 15 escudos
Estava preocupado com o custo dos livros. Mas como eram
livros únicos e não mudavam todos os anos, mantinham-se por vários anos,
podiam-se comprar em segunda mão
Quando se matriculou deram-lhe a lista dos livros
necessários para frequentar o primeiro ciclo liceal
Em conversa com um colega ficou a saber que, na Calçada do
Carmo, em Lisboa, defronte do Quartel do Carmo, havia um alfarrabista que
comprava e vendia livros escolares em segunda mão, aproveitou para comprar
também um dicionário de português, em segunda mão ( da Porto Editora, 3ª edição)
Com um horário escolar das 20 às 24 e mais oito horas de
trabalho, metade do dia ocupado a trabalhar e estudar, foi assim durante quatro
anos, até ser chamado para cumprir o serviço militar obrigatório
No primeiro dia de aulas, o professor de português mandou-os
fazer uma redação, para avaliar o que cada um sabia, quando lhe devolveu a
redação, disse-lhe que tinha gostado das rimas e que continuasse
O patrão abriu a primeira loja, na Rua de São Bento, em
sociedade com um merceeiro, que tinha visto o negócio reduzir muito. Mas a
sociedade foi de curta duração
Andava sempre com problemas de dinheiro, as letras a 90
dias, venciam-se antes da venda dos tapetes ou do recebimento das vendas destes
Mas, isso não o impediu de comprar o trespasse de uma loja
de móveis, na rua dos Poiais de São Bento, onde passou a vender, também,
tapetes
No dia do vencimento das letras é que se via o sofrimento por
que passava, tinha o hábito de enquanto fazia a barbara, deixar a porta da casa
de banho aberta, falava para o espelho, arrepelava os cabelos, quem não
soubesse diria que tinha enlouquecido, o que não podia era deixar que fossem
para protesto, porque isso podia fazer com que não pudesse comprar a crédito
Numa manhã, o empregado viu tão aflito, que se esqueceu de
que o irmão se queixava de que nunca mais tinha visto as suas poupanças e
disse-lhe que tinha 4.000 escudos nos CTT ( os CTT tinham uma parceria com a
Caixa Geral de Depósitos, que permitia que se depositasse e levantasse dinheiro
nos CTT, como se fossem agências da
Caixa)
Passou o tempo, pediu-lhe o dinheiro várias vezes, mas não
conseguiu que lhe devolvesse os 4.000 escudos que lhe tinha emprestado.
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Na Escola Académica,
tinha um colega de carteira, que era um barra, o melhor aluno da turma, sabia
escrever à máquina e trabalhava num escritório, o que fez com que quisesse
comparar uma máquina de escrever, tinha o sonho de um dia, também, trabalhar
num escritório
Num belo dia, estava sozinho na loja dos Poiais de São Bento,
entrou na loja o vendedor da Regisconta, vendia máquinas de escrever, calcular
…., disse-lhe que o patrão não estava, mas que ele estava interessado numa
máquina de escrever, depois de ver o catálogo, escolheu uma, que custava à
volta de 4.000 escudos, e combinaram o dia da entrega
Assim que o patrão chegou, disse-lhe que tinha encomendado
uma máquina de escrever e que precisava do dinheiro para a pagar
Um dia antes, do dia da entrega da máquina, o patrão pagou-lhe
a dívida e ele comprou a tão desejada máquina de escrever, estava escrito nas
estrelas que iria escrever muito
Aproximava-se a época dos exames, para se candidatar a
exame, como aluno externo, tinha de apresentar o boletim de vacinas e o diploma
da quarta classe
Escreveu para a Delegação Escolar de Mértola, onde tinha
feito a quarta classe, enviou uma nota de 20 escudos, dentro da carta
registada, como tinha feito para o Registo Civil de Almodôvar, aquando do
pedido de uma certidão de nascimento, para tratar do Bilhete de Identidade,
recebeu o troco em selos do Correio
Passaram uns dias, sem resposta, com receio que o diploma
não chegasse a tempo, enviou nova carta, mas com acuso de recção, recebeu
imediatamente uma resposta, dizendo que em breve lhe enviariam o diploma, e
assim aconteceu
Assim que recebeu o diploma da quarta classe, foi-se
inscrever para fazer o exame do primeiro ciclo, como aluno externo, no Liceu
Passos Manuel.
Fim.
José Silva Costa
Vidas de outros tempos em que não existiam subsidios para ninguém.
ResponderEliminarEsta leitura faz acordar a memória. Sou advogado ainda do tempo das letras protestadas. Parece que foi há milénios.
ResponderEliminarUm abraço caro Amigo