É uma jovem médica de olho azulíssimo, linda e a mais gratificante despedida, que se aproxima. - Boa tarde, sou a anestesista, então, sente-se bem? - Já na horizontal, deitado num estrado qualquer, com a enfermeira a operar sevícias várias e ignotas no braço direito. A comprimi-lo com uma liga, a espetá-lo com agulhas, com uma chinesice de tubos e cócegas a acrescer ao tormento.
Mas a resposta sai quase cantada, nada choramingas, que diabo!, quem se lembraria de fazer fraca figura ante o encanto da doutora?
(O mal maior era sobretudo a fome: iam lá 24 horas movidas apenas a água...)
Nada a declarar, pois. Dores nem vê-las, e a picada da agulha é somente uma impressão e a consciência de que está iminente a inconsciência, esse buraco sem fundo. Quando será? Como será?
O exame é duplo. A colocação de um dispositivo na boca, para a manter aberta - Abra a boca! - é mansamente acatada; o momento final aproxima-se. - E respire pelo nariz! - a derradeira ordem, prontamente obedecida. Depois...
... Em que instante terá sido? Onde era, afinal o precipício, que vertigens, alguém sabe como foram? E qual a duração do sono em que houve sonhos indolores e um acordar de quem sai do estado de hipnose?
Ainda a ideia do exame a fazer e logo ele surgindo feito! E a fome, ferocíssima - Sra. Dra., posso jantar? E beber vinho? - Um sorriso, os olhos ainda mais azuis, - Vá, homem, vá. Parece estar tudo em ordem...
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