Eu já ia na morfologia da ave, no seu habitat e nas suas preferências alimentares, em absurdas comparações com vampes e passerelles, mas depois risquei tudo. Não é isso o que se deve dizer do pernalonga. De resto, o campo de acção fora já abordado, ainda agora lá permaneço especado com o meu filho, ele às voltas com as salinas e os marnotos (bem conheço a sua poesia, onde a ironia disfarça o fatalismo), eu mais atento à suprema liberdade de gestos que é o voo das aves.
Porque o pernalonga andava por ali, em lentos rodeios que o traziam sempre para mais perto. Já lhe via o laranjal, as suas andas, e a sovela do seu bico a furar o lodo.
Não era dia de pressas. A sua desconfiança esfumar-se-ia e ele não deixaria de se aproximar da minha câmara.
Meu dito, meu feito. A uma vintena de metros, numa regueira com a ementa completa: a água, a vegetação, o lodaçal.
Assim me banqueteei com aqueles dois caniços alados. Romaria minhota os inventasse, tão ágeis e bailarinos. Sem um tropeção nem a ébria descompostura atordoada pelos bombos. Agora o silêncio incluía o bater de asas e a taina toda a sabedoria do mikado. Foram muitas as poses e os retratos, afinal. A vamp era irresistível e desconheço quando me reencontrarei com o pernalonga.
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