Fox, o imigrante

O rapaz do restaurante em Estarreja prestava-me informações sobre a cidade e o Antuã, quando a minha atenção se desviou para um dos automóveis estacionados perto. - O que é isto? - É o meu carro? - Que se chama?... - porque a traseira, somente o seu lado visivel, anunciava apenas "Fox", um modelo para mim de todo estranho.
A viatura nascera em 1982 na África do Sul; a mais velha de uma prole com ramificações até ao continente americano, sem escala na Europa. Era um Volskswagen Fox. espelhando bem a resistência boer e a agilidade ladina das raposas; afeito a esses mundos longínquos, onde o rapaz nascera, precisamente em 1982, de uma família que se escapuliu de Moçambique para a África do Sul. Herdou depois o Fox do avô e trouxe-o para Portugal. Um carro decerto pouco menos do que único, nestas bandas.
E com uma história calada na mala volumosa. Porque não terá deixado de viver os anos mais acesos do apartheid, os bairros urbanos e as ruas ululantes em chamas, a apoteóse de Desmond Tutu e de Mandela, o epílogo do racismo legal, ali no cabo da Terra.
Urgia ouvir essas memórias que o avô já não contará... E que o Fox recorda em pouco mais do que no volante à direita e numa pintura cansada, na qual parece ainda poisar a poeira avermelhada desses territórios de sede e de sangue.


 

Comentários

  1. Esses automóveis são uma preciosidade.

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  2. Faz parte da nossa maneira de ser, acolher toda gente e os pertences.
    Boa noite e bom fim-de-semana, caro Amigo.
    Um abraço.

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    1. Estes escaparam da boa, caro Amigo.
      Um abraço.
      Uma boa noite

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