Um retrato perdido na estrada

O percurso, rectilíneo, entrou a deitar-se de barriga para baixo, sempre mantendo o sentido. A estrada ia muito estreita, sob um cerrado nevoeiro e forte cacimba. Evidentemente, a visibilidade era a pior. Mas aquela negrura basáltica e o branco puríssimo deram o alerta, tal o contraste com o alcatrão molhado. O que seria? Uns gatitos, talvez.
Prados vedados com rede ladeavam a via. Os dois irmãos - uma espécie de Zé-Tó e Tó-Zé - tinham-se posto precisamente no eixo da estrada, já de si encolhida pela humidade, e expressavam um sorriso faceto, como se não houvesse no mundo condutores distraídos. Nascidos a noite passada, é claro, e da mãe nem sinal nem balido. Eram dois cabritinhos.
Estaquei o carro e liguei os quatro piscas. Confesso ocorrer-me a ideia de os apanhar, levar para o hotel, para o aeroporto, para os meus remotos domínios famalicenses, visto sobrar-me uma casa de banho... Mas a operação não se me afigurou de acessivel concretização. Restava, pois, evitar a catástrofe.
Os bichinhos sempre se esquivaram com a minha aproximação e, para lá da nebina, troou o eco aumentado de uma camioneta a aproximar-se. Ergui os braços, fiz sinais, e o ilhéu, o olhar turvado pelo tempo, lá me confundiu com um britânico - Hello sir, is everything alright?
Estava tudo bem, muitas graças. Somente era preciso ter cuidado com aquelas criancinhas - e apontei com o dedo, já para a berma.
O homem ficou lá e eu prossegui a minha volta por Santa Maria. Provavelmente eram dele os nascituros e a sua irresponsável ou desalmada mãe.

 

Comentários

  1. Todo o cuidado é pouco na estrada e com esse bichinhos a vaguear por lá não durarão muito tempo. Gostei da familiaridade criada, o Zé - Tó e Tó - Zé.

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  2. As estradas transformaram-se em granadas, para todos, caro Amigo.
    Boa semana e um abraço.

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    1. Mas estes lá terão escapado, espero eu.
      Uma boa noite, caro Amigo.
      Um abraço.

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