Passo o dia sentada, à espera que se sentem, mas pensam
que eu não sinto, nem a espera, nem a solidão da espera.
E
também pensam que não sinto o peso quando se sentam. Sim, o peso da
responsabilidade de não deixar cair quem se senta, por vezes com peso a mais
para a minha tara.
Não, não é tara nem
pancada é apenas o facto de à minha tara ter que descontar o peso bruto que me
cai em cima, desamparado e à bruta e que eu aguento, às vezes a gemer outra
vezes a ranger, sendo que este último grito entre dentes, confunde-se com o
ranger do chão que me suporta.
Estou aqui o dia todo,
ao sol e por vezes à chuva, que em Sintra cai quando menos se espera e que me
molha na minha espera e nunca espero que me tapem, aguento-me, porque sei que
não se ralam comigo. Só sei que quando chove, à espera, junta-se a espera que a
chuva passe e às vezes, com tanta espera, só espero que a espera se canse e se
vá embora e me leve também.
Hoje era dia em que a
meteorologia anunciava Sol, afinal a Primavera chegou, não é?
E assim, logo pela manhã
resolvi reclinar-me durante espera, que não durou muito, caiu-me um esfomeado
em cima, que não deveria ter comido, porque já era gordo demais para vir
enfardar comida, ainda por cima logo pela manhã.
Espero que não me
critiquem e quiçá me perdoem, por aplicar a palavra gordo para rotular alguém
que resolveu sentar-se em cima de mim, mas ainda não me deram o código da
linguagem inclusiva para eu estudar.
Mas não sou imputável,
mesmo que o fosse, também não me podiam julgar, porque sou uma coisa, sem
personalidade jurídica.
Ainda assim tenho 4
pernas bem assentes na terra ou no caso em apreço, ou seja na foto, com duas
pernas bem assentes na varanda.
Isto não foi uma queixa,
a lei também não a aceitava, nem ao abrigo da lei do trabalho, se calhar é por
isso que estão a revê-la, devido à falta da tal personalidade jurídica.
E sabem o que a minha
companheira de mesa, sentada à minha frente me disse; Não te podes, reclinar-te
é deselegante, destoas da organização do grupo e das boas práticas da empresa;
- Depois não te queixes!

Cada um com a sua cruz.
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