Quando o Sr. Teixeira anunciava robalos

Era, no cosmos tripeiro, a estrela mais brilhante dos pescadores, o meu vizinho Sr. Teixeira, nesses recuados tempos da Rua de S. Vicente. Eu, advogado a todo o gás; ele, já reformado, as manhãs todas, cedinho, passando debaixo da minha janela, na sua voltinha com os cães.
Fora funcionário judicial e não desgostava de uns tiritos aos coelhos. Mas a pesca era a sua ciência e a sua delícia (- Oh Dr.!, o robalo está a subir o rio. Vamos esta noite?)
E iamos. Depois de deitar os meus filhos, de lhes contar a infalível história que então concluía num tubarão qualquer, para seus regalo ao pequeno-almoço - se dormissem bem, é claro...
O robalo começava a entrar no Douro com a primavera a bater-nos à porta. E vinha faminto, no breu das marés nocturnas. Aprendi com o Sr. Teixeira o manual inteiro, desde a cana a usar até às chumbeiras e à borracha no anzol, rabiando como um peixinho aflito. Madrugadas agitadas em Santa Marinha (na banda de Gaia) na estreiteza das ruas (e dos barzecos com remédios para o frio) marginais ao rio. Lança, recolhe, volta a lançar, um vergastar infrene da cana, a manivela do carreto sem parança. E, volta e meia, o esticão, o nylon tenso fugindo do tambor, zunindo, cinco, dez minutos a cansar o bicho até o trazer à tona, ao "ganapom", prateado, robusto, lindo, a pedir tacho e assadura.
(Ao lado, escondida na noite, a concorrência murmurava... Pudera! Andavam com boias e isco natural, nada que interessasse à voracidade do robalo. E os segredos do Sr. Teixeira permaneciam connosco e a nossa pesca.)
A qual só terminava com o nascer do dia em que não haveria tribunal nem escritório de manhã. Nem, tão-pouco, o tubarão; apenas robalos, bem vistas as coisas uma espécie de tubarão bebé, que os filhos apreciavam igualmente.
Foram tempos. Foram, sobretudo, entre tantos espartilhos e tanta porrada que sei quem não levou, gratas horas de liberdade gaiata, de regresso às noites sem dono.
Onde esteja, Sr. Teixeira, Deus o recompense por quantos momentos de outra vez eu, uma madrugada que fosse.


 

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