Já não sei o que é um poeta

Assisti hoje à entrega de prémios num desafio lançados aos poetas que se motivassem a nele participar. Não interessa onde: foi num sitío qualquer, como podia ter sido em outro também.
Havia expectativa. À laia de introdução, um dos membros do juri mencionou três aspectos por que se pautava a maioria dos poemas dos 842 participantes: a insistência em amores falhados, os tons tristonhos das peças apresentadas e a sua pobreza de vocabulário.
(Hei de dizer, - fui um dos concorrentes. Eu e o meu filho, cujos poemas desconheço. E, obviamente, não me cabe fazer uma auto-avaliação. Ambos fomos preteridos.)
Tive, então, o ensejo de ouvir os trabalhos eleitos. E (para rimar...) dei deles em fracos jeitos.
Fraquíssimos. Abrindo mesmo as portas - escancarando-as - ao que não é a poesia. Abordavam a liberdade, o drama dos doentes hospitalizados, a violência (retive o verso dantesco do "deus monstro sorvendo a mulher"!) e, - vá lá - no triunfador, algo mais original em torno da platónica Alegoria da Caverna.
Mas em nada detectei poesia. Claramente, os temas até se prestam a ela. Mas tudo se resumia a uma prosa extensíssima, sem ritmo nem harmonia, sem beleza nem convicção. Eram proclamações sucessivas e insatisfeitas (note-se, eu dou todo o mérito ao panfletarismo de Guerra Junqueiro...), obsessivas, repetitivas - mas sem unhas para agarrar anáforas ou pleonasmos estilísticos - sem cores, sem alma, sem génio. Não mais do que relatos postos em verso branco, bem vistas as coisas, decerto crónicas - se com tal humildade - excelentes sobre os males do nosso quotidiano.
Mas como nunca integrei um juri, o meu juizo há de ser meu, um mal meu, e só meu. Quando, por isso, escrever sobre a morte da gata da vizinha não pouparei no papel e trocarei, aos solavancos, períodos por versos e estrofes.  E - ó ribeiras - "chorai/que eu não volto a cantar/rios que vão para o mar/deixem meus olhos secar", como José Afonso prenunciou. Ele tinha voz, tinha sensibilidade poética e não desafinava em atoardas...

 

Comentários