Em silêncio

 

Molhámos os corpos com saliva

Cantámos em todos os mares

Silenciosos mares que nos escutavam

Imobilizados em marés que se afundavam

   em nós

Caminhámos...devagar

Como um esquecimento

Ou como uma concha tecida com

   gestos simples

Havia dias indecifráveis...algas

Céus em todos os recantos de nós

Afundámo-nos na febre das aves

Adormecemos em frente ao silêncio

Fomos o sol e a luz que vigia a noite

Dormimos

Sabíamos que nos cobria o tempo das florestas

Refúgio das borboletas que anunciam dor

Ou a partida de alguém

E eu tinha medo

Tinha medo de acreditar nas vozes

Que me falavam de viagens

Queria tirar a máscara

Arrancar o relógio de sol

Imobilizá-lo dentro de um tempo lento

Mas havia um não acreditar que

    sobejava da noite

Havia um resfolegar de cansaços

Uma gritaria maior que nós

Sabíamos que nas nossas almas vivia o

   entorpecimento do instante

Havia o grito a rasgar as nossas silhuetas

   já distantes

Pensei em chamar-te…

Ardia-me a garganta...calei-me...

 

Comentários

  1. O verso "afundámo-nos na febre das aves" deu-me muito gosto, caro Amigo. As aves são canoras tanto quanto o silêncio. Só o silêncio nos permite a aproximação delas.
    Um abraço.

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