Do direito à vida (dos patos bravos)

Não vai muito tempo, topei no catálogo do alfarrabista de que habitualmente me socorro um livro (bem ilustrado) sobre os anatídeos em Portugal. Encomendei-o e comprei-o.
Para quem não saiba, os anatídeos são a familia a que pertencem os patos, gansos, cisnes e mergulhões. O referido livro trata deles todos em estado selvagem, e segue muito dirigido aos caçadores.
E não será dispicienda outra nota: a caça aos patos bravos (não, não são esses patos bravos, são os outros, os genuínos patos bravos, nas suas várias espécies) - a caça aos patos bravos, dizia, é a única modalidade nocturna consentida pelas leis venatórias. Envolve frio, botas até à cinta, dolorosas esperas, neblinas matinais, lodo, barcaças e  mais delongas em que nunca me comprometi.
Mas fartei-me de matar patos reais. Esses, cujos machos em alturas nupciais se azulam e esverdeiam no pescoço. Em vastas charcas alentejanas, onde os bandos poisavam, e em largadas onde ainda agora os vejo de pescoço esticado, voando aflitos, a minha mão a correr a espingarda, a mira a adiantar-se, o desconto... Trau! - era uma vez um pato.
Depois achei que não. O meu programa de velhice e reforma incluia uma substancial criação de patos diversos, o meu apreço pela sua beleza e pelo seu amável quá-quá. E disso para comigo: matar patos - nem mais um!
Cumpri. Já nem me lembro da caça aos patos. E as cores e as formas desenhadas no meu livro dos anatídeos dão-me agora uma vontade quase incontrolável de me encharcar em águas paradas, fedorentas, com a minha máquina fotográfica apenas.

 

Comentários

  1. Pois é caro amigo, essa é a forma de caçar (com máquina fotográfica) que defendo, eu que resido a 300mt. da Reserva Natural do Estuário do Tejo, onde os patos se reproduzem e se divertem. Abraço e boa sexta feita (folhas de luar)

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    1. Caro Amigo, eu ainda persisto nas perdizes. Se as galinhas voassem, também. O resto, já disse. Felicito-o! Quem me dera viver perto desse paraíso.
      Bom fim de semana! Parto para o sul, há faisões mas só levo a máquina fotográfica.
      Um abraço, caro Amigo

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  2. Os patos bravos que não são dessa família palmípede e que esvoaçam por aí bem mereciam uns tiros nos fundilhos. Os outros deixá-los voar... Bela crónica. Como sempre, aliás!👏👏👏👏👏👏👏

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    1. Obrigado, José. Ah se abrisse a época aos patos bravos, desses, logo tinhamos a Bandeira hasteada. Um abraço.

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  3. Caro Amigo, cada idade com a sua sensibilidade. A máquina fotográfica é uma boa arma, para fixar a atualidade.
    Bom fim-de-semana e um abraço.

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    1. Tem toda a razão caro Amigo. A gente olha para trás e vê a mudança de atitude.
      Um abraço

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  4. Escrever sobre a caça com essa crueza e, logo depois, com essa ternura, é um exercício de honestidade admirável. O frio, o lodo e o "desconto" do tiro dão lugar a uma quietude muito mais rica. Que o seu livro de anatídeos continue a ser o mapa para essas águas paradas onde, agora, o único disparo permitido é o da admiração. É um desfecho magnífico para essa gramática dos anatídeos. Substituir o peso do gatilho pelo clique da câmara não é apenas um programa de reforma, é uma evolução do olhar. Há mais vida no "quá-quá" e no verde nupcial de um pescoço focado pela lente do que em qualquer troféu de caça. Ficamos à espera dessas futuras fotografias, resultantes de esperas agora bem mais luminosas.

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    1. Obrigado, caro Daniel Marques . Isto propaga-se. Ontem fui aos faisões mas só levei máquina fotográfica. Qualquer dia os meus cães fazem um abaixo-assinado.
      Bom domingo!

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  5. Um desses, igual ao da foto, esbarrou em certa noite contra a parede da minha casa com estradalhaço suficiente para me acordar. Deve ter-se desonrientado e cometeu um erro fatal no calculo da rota. Tive de lhe fazer o curativo, coitado. Ele, por sua vez, contribuiu involuntariamente para um arroz fantástico feito pela minha Maria.

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    1. Pôs-se a jeito do arroz...
      Vou visitá-lo a sua casa, tal como o pato, mas sem perigo de contribuir para o arroz

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  6. "Envolve frio, botas até à cinta, dolorosas esperas, neblinas matinais, lodo, barcaças..." o que não me parece mau de todo! Pois que adoro neblinas matinais, esse lodo, que por aqui também se encontra na maré baixa e tantas das aves que desconheço, para lá das mais, que o meu querido amigo conhecerá decerto. Poético o seu texto no âmago! Bela a decisão de "disparar" somente a máquina. Além de que temos de caçar, está-nos implicito no sangue! Um grande abraço com carinho e amizade. Boas capturas a sul.

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    1. Amiga Maria, o "caçar implíto no sangue" a que deu realce, agrada-me imenso. Na verdade assim é. Na Natureza e em nós humanos de agora, porque a caça é um gosto que se herda. Eu, que já sou velho, compreendo muito bem o meu saudoso Pai que em novo disparava como um metralhador e, já de idade, só atirava ao que valesse a pena, essencialmente o que fosse comestível. A caça, assim vista, deixa de ser predadora e passa a conjugar o desporto e a utilidade.
      No sul - in casu, uma largada de faisões, entendi que não era necessária uma espingarda mais: já havia muitas. Por isso cacei com máquina fotográfica.
      Um abraço, minha Amiga.

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  7. E fotografar tal como caçar também não é para todos. É preciso calma, tranquilidade e esperar pela melhor pose. :)

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