É por amor que o Mar regressa à Nascente
O nascer do mar
é um enigma.
Um acorde matricial, onda prateada,
que se abandona, para se tornar curso,
verso, poema, poeira, folhas, seres alados,
prodígios, partículas e partes inteiras
de tantas outras coisas.
Surge sem pressa,
detém-se nos seixos,
desenha margens nos céus, nas tempestades,
toca o fundo, o leito, sem o possuir,
e a terra cede ao seu desejo.
O sol evapora-lhe a eternidade,
e as montanhas dobram-se quando as toca.
Chega à foz,
hesita, no limiar,
recusa o oceano.
Negando o contorno redondo do mundo,
cai para norte, contra corrente,
no delta cálido do equador,
tornado vertigem, intangível suspensão.
Gota a gota, evapora-se no azul imenso,
em horas rendidas que terminam em silêncio.
Frágil, recua para sul.
Recomeça. Regenera o sopro inicial,
o requinte do primeiro átomo,
exala vida espontânea,
e determina o princípio do espanto.
O mar, por amor,
regressa à nascente.
Nesse precioso momento,
metáfora de imperfeita criação,
em que renasce sem se completar,
milagre de paixão por cumprir, indefinido,
onde se converterá em rios de humanidade."
Mafalda Carmona
* Poema publicado na Revista Literária Semestral PALAVRAR,

👏👏👏
ResponderEliminarResto de dia Feliz!✨
Cuida-te!🙏
🤍✨️Obrigada, igualmente!🙏
EliminarGostei imeso de ler este poema que me transportou para as margens dos oceanos, onde as ondas navegam e espalham as suas palavras, umas vezes suaves e tranquilas repletas de amor, mas por vezes cheias de força, quando não cuidamos da superfície aquática que banha o belo planeta azul.
ResponderEliminarEnquanto escrevia este comentário escutava o tema "ondas" do pianista Mike Nock, cuja capa do disco bem poderia ilustrar este seu belo poema.
Os melhores cumprimentos
Muito obrigada pela leitura atenta e pelo cuidado das palavras. Fico especialmente sensibilizada por essa escuta em paralelo. Os meus cumprimentos.
EliminarQue bonito poema, muitos parabéns, Mafalda.
ResponderEliminarUm poema de que gosto muito, sobre o tema o sublime da imperfeição.
EliminarFico feliz pela sua apreciação, caro amigo deste desgovernado blogue! 😊Muitíssimo obrigada, José.
Muito bem Mafalda. A nsscente do mar é a busca das nossas vidas.
ResponderEliminarO requinte do inacabado, se a perfeição nos fosse revelada findaria essa busca. Obrigada, João-Afonso.
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