Amadurecemos

 

Amadurecemos como um fruto

  resplandecente

Ano após ano os braços agarravam

   a eternidade

Tínhamos nos dedos o anel espantoso

   das utopias

Éramos felizes como o cantar despachado

   das carriças

Não sei que tempo secou o nosso prado

Nem que conchas desabaram no areal

Mas ficámos para sempre enterrados nos

   braços resplandecentes da primavera

Os figos falavam de perfumes

Renovámos a nossa floresta cravejada

  de orvalhos matinais

Distraídos subimos o cadafalso das

  folhas murchas e entrámos em setembro

Os rouxinóis esconderam o canto

O silêncio chegou como uma tarde

   de domingo

Enviámos o nosso olhar para o paraíso

   dos prados verdes

Sabíamos que éramos seres sentados

   na beira da ilusão

E caímos...caímos como folhas secas

   pelo estio prolongado

Agora desenho o teu reflexo na rua

Despeço-me dos quartos caiados

   de branco

Renovo-me em opulentos subterrâneos

    assombrados

Esqueci que na tua chama ecoavam

   densas pinturas roxas

E apenas por uma vez fui o jogo

   que não jogámos

A areia que escorre pelas paredes

A esperança cravada na pele

A ampla opulência de uma felicidade

   que mesmo ausente

Perdura como um ardor que tece

   de seda pura o meu coração.

Comentários

  1. Gostei muito. A utopia tem sempre de permanecer, ao jeito de cada um. Mas sem ela, o pragmatismo dá cabo de nós. Um abraçõ, caro Amigo.

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