O encontro nacional de samarras

Estive lá com a minha beldade. Estiveram muitas mais. Vinham chegando todas, em grupos animados cheiricando o prometido cozido à portuguesa. O ponto de encontro ficou assente no largo do pelourinho, algures no Nordeste que, à hora da taina, transbordava já de palradoras samarras.

Vinham elas dos quatro cantos do Reino. Negras, umas, negras da antracite de Penafiel ou dos carvões montalegrenses. E traziam-nas mais acastanhadas as gentes bragantinas, e classicamente cinzentas os alentejanos e até os beirões.

Na humidade do largo do pelourinho decorreu a primeira prova. Cronometrava-se a resistência ao frio, os pés da samarra casqueando a pedra gelada, esverdinhadamente escorregadia. E sobressaíam nessa hora as golas. Não há outras que valham as raposeiras nortenhas. Isso jamais. Nem tão-pouco a lhaneza com que recebem as ovinas, mais humildes, rasas nos pescoços, balindo como se ainda pastando na planície transtagana.

Eu digo que o frio, o verdadeiro frio soprado pelo vento como lâminas de barbear, esse frio é dos altos minhotos e flavienses e maroneses ou barrosões... As samarras são como o gado, mugem também os nomes da sua proveniência e aquecem os donos, não com o próprio bafo, antes pela espessura do surrobeco e a pelagem das golas.

Eram às dezenas, depois indo felizes no rasto das irresistíveis carnes do cozido à portuguesa. Abancaram todas, comeram, beberam, penduraram-se nas costas das cadeiras de pau, suando já do braseiro na lareira da sala. E desembaraçadamente participaram no concurso da miss gola mais bela.

Ganhou a minha! É. Não havia mesmo quem se equiparasse à minha raposa. No modo rude destes falares, alguém a classificou "boa como o milho"...


Comentários

  1. Caro João-Afonso Machado
    Passei a minha adolescência a conviver nos invernos com uma samarra que me ofereceu a minha avé e usei-a até chegar aquele momento em que o crescimento me impediu de a vestir e também tinha engordado. Por outro lado o seu texto fez-me recordar um conto de Natal do Urbano Tavares Rodrigues intitulado "A Samarra".
    Um abraço!

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    1. Obrigado, caro Amigo. A minha já tem uns anos mas previdentemente comprei-a larga.
      Um abraço

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  2. As samarras este ano são muito úteis. Tudo o que seja para juntar amigos, é de aproveitar, caro Amigo.
    Noite tranquila e um abraço.

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    1. Tenho-a usado todos os dias, caro Amigo.
      Olhe que o temporal está de volta amanhã...
      Um abraço.

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  3. Maravilha de texto!
    Samarra, um nome que há muito tempo não ouvia falar.
    Gostei deste ambiente.

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    1. Olá Maria
      A samarra é o vulgar blusão de Montalegre. São às dúzias por lá. Eu gosto muito.
      Tudo de bom

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  4. Não tinha conhecimento desse encontro.
    Tenho pena que não nos tenha proporcionado fotografias para uma ideia mais concreta.
    Em todo o caso, parabéns ao vencedor.
    Abraço amigo.
    Juvenal Nunes

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